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Sarah Mângia

Em 1986, na cidade de São João del Rei, Minas Gerais, nasceu Sarah Mângia Barros.

Esta mineira, entrou pra biologia para trilhar uma jornada acadêmica de sucesso, se formou como bióloga pela Fundação Educacional de Divinópolis - Universidade do Estado de Minas Gerais (2008). Porém não parou por aí não, em 2011, a sapóloga conquistou seu título de mestre em Biologia Animal pela Universidade Federal de Viçosa e, em 2017, obteve o título de doutora em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba. Hoje em dia, ela atua principalmente com História Natural, Bioacústica, Taxonomia e Filogeografia de Anfíbios, no laboratório Mapinguari, como professora e orientadora (voluntária) no Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E além da área acadêmica e da pesquisa, realiza trabalhos como consultora por todo Brasil, prestando serviço para mais de 10 empresas.


Apaixonada pela fauna e flora, pela literatura e pelo bioma da Caatinga! A Sarah transforma o seu trabalho de campo em seu dia a dia na consultoria ambiental, em poesia, ao transmitir toda sua paixão pela biologia em registros de imagens compartilhadas em suas redes sociais.

É notório a todos que já passaram pelo perfil da pesquisadora, acompanhando suas postagens e publicações, a maneira como ela consegue transmitir conhecimento de forma lúdica e poética, unindo o seu olhar aprimorado para com a natureza, toda sua bagagem acadêmica e a sua admiração pela literatura e música, transformando suas postagens e publicações em um verdadeiro deleite à todos.

Apresentamos a vocês, esta super sapóloga!


A Sarah, gentilmente, aceitou bater um papo com a nossa equipe de alfabetização científica, vem dar uma olhadinha nessa entrevista com a pesquisadora!


- Quem é a Sarah? (aqui defina suas origens, e características que queira compartilhar com o leitor) A Sarah é bióloga. Recentemente me perguntaram se eu poderia me definir sem utilizar a minha profissão. Após uma reflexão eu não me importei em dizer: “Não vai dar. Eu sou bióloga como profissional e como pessoa.” Porque ser bióloga faz parte do que há de melhor em mim. Comecei certa da escolha do curso, na Universidade do Estado de Minas Gerais, em Divinópolis, MG, cidade onde fui criada desde os quatro anos de idade, e onde me formei em Ciências Biológicas, em 2008. Em 2009, me mudei para Viçosa, ainda em Minas Gerais, para fazer o mestrado em Biologia Animal na Universidade Federal de Viçosa. E foi quando percebi que eu tinha um mundo todo para descobrir. Um mundo de muitas espécies de sapos, as já conhecidas e as que eu, um dia, iria ter a honra e o prazer de nomear. A taxonomia me abraçou e me apertou confortavelmente para nunca mais me deixar. Em 2013 eu iniciei o doutorado em Zoologia na Universidade Federal da Paraíba. Quando me mudei para o nordeste e comecei a realizar excursões de campo para coletar os dados, percorrendo todo o nordeste, meu coração, tardiamente, percebeu que o Brasil tem diversas realidades; Muitas delas, infinitamente distantes da minha, e dolorosas de vivenciar. Mas assim como a taxonomia, o sertão nordestino me embalou com seus tantos espinhos e, hoje, meu coração continua cravado em um cacto em cada pedacinho de chão que percorri – e ainda percorro – nesse chão da Caatinga. Dei continuidade às minhas pesquisas como pós-doutoranda na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, onde hoje permaneço como professora voluntária e oriento no programa de pós-graduação em Biologia Animal. Ao longo de todo o meu histórico acadêmico, realizei diversos trabalhos como consultora ambiental. Este cargo me possibilitou percorrer quase todos os estados e biomas brasileiros, conhecer lugares, pessoas, e culturas que eu talvez jamais conheceria se não fosse pelo meu trabalho. Hoje eu falo, de forma convicta, que a biologia me permitiu ser uma pessoa melhor. Porque vivenciar de tão perto as diversas realidades deste país, abre um buraco enorme na nossa mente. Um buraco pronto para receber e processar milhões de pensamentos e sentimentos a respeito da nossa existência e da nossa função no mundo.


- Quais foram suas linhas de pesquisa ao longo de sua carreira? Eu participei de várias atividades durante a graduação, incluindo projetos educacionais (educação ambiental em escolas do ensino fundamental com visitas às margens do Rio Itapecerica para mostrar o Projeto Nova Margem, de restauração do Rio na área urbana), projetos de extensão (tive uma bolsa para taxidermizar os animais e contribuir para a criação de um museu de Zoologia na UEMG/Divinópolis), e projetos científicos (tendo como objeto de estudo as formigas). Foi importante experimentar as várias oportunidades oferecidas durante o curso para eu ter certeza do que eu gostava e do que eu não gostava. Fui conhecer e me apaixonar pelo mundo dos sapos apenas no último ano da graduação, a tempo de realizar o meu TCC nessa temática, tendo a honra de ser orientada pela sapóloga Milena Wachlevski. Já no mestrado eu comecei a trabalhar com taxonomia deste grupo de animais e nunca mais parei. Há 14 anos eu trabalho com taxonomia, sistemática e filogeografia de anfíbios, descrevendo e sinonimizando espécies, e contando as histórias e os eventos (surgimento de cadeias de montanhas, alterações climáticas, introgressões marítimas) que permitiram o surgimento das novas espécies. A mineira “contadora de causo” que habita em mim não se segura para contar as fofocas e novidades do histórico evolutivo dos sapos!


- Ao longo de sua trajetória acadêmica, quais foram, e são, as maiores dificuldades que encontrou? Falta de incentivo à pesquisa. Desde que ingressei no mestrado, em 2009, o Brasil já enfrentava cortes no orçamento destinado à ciência. Metade do meu mestrado eu realizei sem bolsa, mas consciente do meu privilégio de poder contar com o auxílio financeiro que a minha mãe podia oferecer na época. Ela não sabia (até agora) que o dinheiro que ela me passava não era suficiente, mas eu não pedia mais. Consegui que o meu projeto fosse aprovado pelo CNPq e passei o último ano do mestrado mais tranquila, focada na pesquisa. No doutorado, quando chegou a minha vez de ter a experiência de um período sanduíche (fora do Brasil), o programa já não tinha mais verba reservada para esta atividade. Assim que coloquei minhas mãos no tão desejado diploma de Doutora, os concursos para docentes em federais começaram a minguar e eu me arrastei em três pós-doutorados até chegar o momento atual: infelizmente, existem mais profissionais qualificados do que oportunidades para valorizá-los. Como muito bem colocado pela pesquisadora Cláudia Alcaraz Zini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “Um país que não investe em pesquisa está fadado ao retrocesso, à subserviência.”


- O que significa ser uma cientista mulher nos dias atuais? Significa resistência. Resistir, persistir e se manter na ciência que, como mencionei acima, vem sofrendo cortes financeiros inaceitáveis, mas que também é um ambiente historicamente composto por profissionais homens, ainda hoje tem seus desafios e dificuldades. Sempre que um artigo é publicado, meus olhos correm para checar as autorias; Na certeza de que a maioria dos nomes (se não todos) será masculina. Sei que muitos pesquisadores homens tem “vigiado” a escolha das parcerias em projetos (convites para palestras, bancas, artigos), para manter o equilíbrio entre os gêneros. E isso é resultado da nossa voz, do nosso grito, do nosso trabalho em exigir condições e oportunidades iguais. Mas, ainda assim, eu não vejo esse reflexo nos trabalhos que são publicados diariamente. Eu falo de um lugar de privilégio, da minha experiência como mulher branca, cis, hetero, que não é mãe, mas que enxerga o abismo que muitas parceiras de profissão enfrentam.


- Existe alguma pessoa que te inspira? Certamente a Sônia Lopes, autora do livro Biologia, foi a minha primeira inspiração e influência para seguir na biologia. Existem várias mulheres cientistas que me inspiraram ao longo da minha vida acadêmica, a icônica sufragista Bertha Lutz, as minhas professoras e orientadoras da graduação Renata Campos e Milena Wachlevski, e outras grandes herpetólogas como a Luciana Nascimento, Fernanda Werneck, Eliza Freire, Albertina Lima, Christine Strüssmann, e muitas outras. Atualmente, as minhas maiores inspirações são as mulheres que me cercam no laboratório, em campo, e as que acompanho nas redes sociais. Que enfrentam todos os dias as dificuldades e os desafios de ser mulher em um meio majoritariamente masculino. Que conciliam maternidade e pesquisa mesmo o sistema não oferecendo base e oportunidades para que sigam trabalhando e produzindo. A gente não precisa buscar inspiração longe. É só olhar para o lado.


- Qual mensagem deixa a juventude que quer se tornar cientista? Eu me tornei cientista porque fui movida pela curiosidade em responder às diversas perguntas na minha cabeça, e pelo desejo de observar os animais na natureza, anotando seus comportamentos e fotografando cada detalhe. Por mais duro que tenha sido a trajetória até agora, eu ainda me sinto feliz executando esse trabalho. Por isso, eu aconselho que jovens cientistas ainda na graduação experimentem atividades em cada laboratório e para cada temática que seja oferecida pela instituição. Façam estágios, participem de projetos distintos, conheçam as pesquisas de seus professores, para entender e assimilar do que gostam e, principalmente, se é isso mesmo que gostariam de fazer. Tenho visto muitas pessoas ingressarem em mestrados e doutorados pelo simples fato de verem outros colegas o fazerem. A vida acadêmica tem muitos desafios e, sendo bem realista e deixando o romantismo de lado, trabalhar como cientista requer habilidade para manter a calma e o equilíbrio perante os muitos prazos, exigências e demandas. Eu mesma já perdi a sanidade muitas vezes (risos), mas continuo amando o que faço, apesar da dificuldade em me manter nesta área, principalmente pela falta de oportunidades, como mencionei anteriormente. Apesar do cenário deplorável atual na ciência do país, eu acredito que teremos dias melhores para a pesquisa no Brasil.




Texto: Aline Freiria dos Reis;

Pesquisa: Diego G. Cavalheri;

Texto Instagram: Aline Freiria dos Reis;

Arte: Aline Freiria dos Reis.

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